oiiii, internet. tudo bem? boas vindas a mais nova edição da gaveta de tralha, a newsletter que trata de cultura (pop, digital, e de fãs) desta Luisa que vos fala. na edição anterior, falei um pouco sobre os autores que matei (metaforicamente) nos meus muitos anos como leitora voraz, trazendo brevemente no texto a questão das bookredes (as comunidades online de leitores). foi fácil falar das bookredes porque sou uma assídua frequentadora dessas comunidades, seja no YouTube ou TikTok, especialmente.
foi essa minha imersão nos livros que consolidou a minha faceta fã. tive muita sorte de ter uma família que sempre encorajou o hábito da leitura, e apoiava meus interesses. minha mãe, especialmente, é também uma grande leitora. vocês talvez se lembrem que mencionei nossa leitura conjunta de As Brumas de Avalon no último número, por exemplo. meus pais sempre me levavam para as edições da Bienal do Livro do Rio, fazendo minhas vontades. foi assim que eu conheci a diva Thalita Rebouças, inspiração de escritora brasileira de histórias para jovens.
embora eu use meu apego aos livros como porta de entrada para explicar a minha jornada fã, foi outra coisa que me encorajou a fazer um doutorado em estudo de fãs. neste número, pensei em contar pra vocês um pouco sobre minha jornada no doutorado, como uma estudiosa de fãs num departamento de Relações Internacionais, pra caso você tenha curiosidade.
mas antes, não se esqueça de se inscrever, tá?
foi um caminho e tanto até eu chegar aqui e conseguir dizer com certeza que sou uma estudiosa de fãs (ou fan scholar, como é o termo em voga na gringa). eu obviamente sempre tive imenso interesse por cultura pop, e passeei por diversos fandoms desde que comecei a saber que pessoas que gostavam da mesma peça de mídia se reuniam. tenho um Tumblr até hoje (embora não entre nele com tanta frequência). estou volta e meia sendo consumida por algum tipo de mídia (mais recentemente, Murderbot Diaries).
mas só foi me ocorrer relativamente tarde que eu poderia estudar esse tipo de coisa. cursar Relações Internacionais foi um sonho realizado - eu genuinamente amo como minha formação foi plural, complexa, e crítica, abarcando conhecimentos interdisciplinares e fortalecendo minha curiosidade em relação ao mundo. na hora de escrever meu TCC, pensei em continuar na mesma linha da minha Iniciação Científica e escrever sobre processos de construção de paz (um beijo pro meu orientador na época, Dr. Aureo Toledo), mas dei uma travada bizarra. foi aí que eu comecei a fazer terapia! e ler a introdução do livro Harry Potter and International Relations abriu minha mente pra um monte de possibilidades, e fez com que eu escrevesse meu queridíssimo TCC sobre Avatar: A Lenda de Aang.

oiiii 45 visitas de Hanoi, no Vietnã… espero que vcs tenham gostado do meu TCC..
na introdução, os autores Neumann e Nexon delineiam alguns caminhos para o engajamento com cultura pop que podem ser seguidos pelos estudiosos de RI. não vou falar deles todos aqui porque isso não é um artigo científico! mas eles apontam para o potencial constitutivo da cultura pop para a política internacional. isso acontece porque, frequentemente, as pessoas usam de peças da cultura pop para se informar. é através do consumo desse tipo de conteúdo que as pessoas montam seu entendimento do mundo! daí, é claro que temos que levar a sério esses processos de interpretação e de apego para entendermos como se dá tal potencial constitutivo.
foi esse argumento que justificou grande parte da minha tese. cultura pop ainda é um objeto relativamente emergente nas RI, que prefere análises de política externa, ou de economia política internacional, dentre outros temas mais tradicionais. mas eu sabia que precisava estudar algo que me desse gosto na pós-graduação, se não, não iria terminar. e eu precisava fazer mestrado e doutorado, para ser professora de RI. falhar não era uma opção.
percebi que queria estudar fandoms no segundo semestre do mestrado. meu projeto inicial era de mapear as formas pelas quais o estudo de cultura pop tem sido feito nas RI, mas aí aconteceu alguma coisa (que nem me lembro mais) que fez com que eu pensasse: na verdade, quero estudar fãs. será que dá? e aí eu descobri que dava! me deparei com o campo de estudo de fãs, que está se consolidando aí desde o final dos 1990, e comecei a devorar tudo que aparecia pelo meu caminho, buscando por outras pessoas no Brasil que também estudassem fãs.
foi assim que eu encontrei a profa. Adriana Amaral, da UFF, e o Laboratório Cultpop, do qual faço parte atualmente. mas, pro meu espanto, não havia lá muita conexão entre Relações Internacionais e estudo de fãs. por que o espanto? pô, quer coisa mais internacionalizada que fandoms? você já viu uma seção de comentário de post de qualquer ídolo de K-pop? tem uma quantidade impressionante de diferentes idiomas sendo representados ali.
além disso, eu tinha a intuição de que existia uma conexão muito importante entre ser fã e ser uma pessoa politicamente engajada. não que todo fã seja um ativista político, nem que todo ativista político seja k-popper, mas pra mim era óbvio que era uma interseção relevante, que deveria ser estudada. essa intuição surgiu por conta da minha própria experiência como fã - muito da minha formação política se deu no contexto de fandoms. e eu percebia que o mesmo acontecia com meus interlocutores, pessoas desconhecidas das plataformas sociais, e também pessoas amigas próximas, do meu convívio diário.
quem estava nas trincheiras do fandom de Avatar: A Lenda de Aang quando o filme live action foi anunciado deve se lembrar do caos que foi. pra quem não sabe, o filme escalou diversos atores brancos para papéis de pessoas de ascendência asiática ou indígena, prática que era até corriqueira em Hollywood, à época. (e até hoje. tipo assim, Jacob Elordi de Heathcliff? em 2025?) só que houve uma enorme comoção de fãs, protestando essa prática racista. o filme saiu em 2010, e esse foi o meu primeiro contato próximo com esse tipo de discussão, de racismo em Hollywood e especialmente racismo contra pessoas asiáticas e indígenas.
isso virou uma chave na minha cabeça e eu passei a me interessar muito mais por entender branquitude, práticas racistas, como o racismo se manifesta em suas diferentes formas, especialmente em práticas de representação. é claro que na época eu não entendia isso como minha formação política, e sim como uma manifestação genuína de curiosidade sobre como as outras pessoas vivem, para além da minha experiência. mas, olhando pra trás, agora adulta, percebo que esses momentos passados mergulhada em comunidades de fãs que analisavam profundamente a mídia que amavam, foi muito importante para a minha formação. espero continuar cultivando essa faísca de curiosidade sobre o resto do mundo, para entender melhor como as pessoas vivem, o que as motiva, como elas se sentem, como interagem com o mundo.
foi bem isso que moveu a minha tese. eu sabia que fandoms podiam ser espaços de formação de consciência política. que, através das interações com a comunidade, seus membros podiam ter contato com assuntos e questões que desconheciam até então - e que, se continuassem vivendo em suas bolhas, provavelmente continuariam desconhecendo. pra mim, participar em fandoms sempre foi uma forma de expandir meu mundo interno, de conhecer outras formas de pensar, de fazer amizades, de ser feliz. não consigo expressar direito o quão eu sou feliz por ser fã. e é uma felicidade tão simples, tão genuína, por simplesmente ter um livro novo pra ler, um filme novo pra assistir, um álbum novo pra escutar. (embora eu também passe muita raiva sendo fã, pra ser justa…)
ser fã muda a forma pela qual eu vejo o mundo, entendo as pessoas, interajo com a realidade ao meu redor. importante, eu sabia que não era a única. outres fãs relatavam o mesmo tipo de coisa, em posts no Tumblr, em tweets, em comentários em vídeos no YouTube. estudar subjetividades políticas em fandoms de k-pop, meu objeto na tese, foi uma continuação direta da minha dissertação de mestrado, em que argumento que fandoms podem ser entendidos como comunidades políticas. pra mim, a vida política é muito mais complexa do que os limites do Estado-nação. ela começa nas pequenas coisas, no cotidiano, e ser fã é um desses fatores que influenciam a consciência política.
tive a sorte e felicidade de ter dois orientadores maravilhosos que toparam tanto minha pesquisa de mestrado quanto de doutorado. eles nunca tinham orientado um trabalho situado tão firmemente nos estudos de fãs, mas me apoiaram sempre, reconhecendo a importância da minha pesquisa, lendo minhas palavras com atenção, e fazendo comentários pertinentes. eu não sei o que seria de mim e da minha pesquisa sem o apoio deles, sério!
esse é, inclusive, um conselho que dou para todo mundo que está ingressando na pós-graduação: encontre um orientador com quem você se dê bem como pessoa. meus orientadores me ajudaram muito para além de me recomendarem leituras. eles me apoiaram enquanto pessoa, foram compreensivos com meus problemas pessoais, estavam sempre empolgados em nossas reuniões. se eu não tivesse sido tão bem recebida e querida por eles, sei lá o que seria da minha pesquisa, sério. a academia pode ser um lugar muito cruel, mas saber que eu tinha dois professores excelentes e pessoas gentis ao meu lado fez toda a diferença.
tive muitas crises de fé durante a escrita da tese, mas acho que isso é relativamente comum. especialmente no cenário brasileiro, de pouco financiamento. várias vezes, enquanto lia editais de fomento à pesquisa e editais de concursos públicos, não via meus interesses de pesquisa representados. mas, para mim, passou a ser mais importante concretizar o que tinha planejado, e improvisar o resto da minha carreira, do que mudar de curso no meio do doutorado. não quero falar muito sobre isso aqui, porque foi um momento muito difícil e ainda me sinto frágil demais para falar disso de forma tão pública, mas sofri uma desilusão de carreira grande, que ocupou várias sessões de terapia e de desabafo com amigues.
acho que por ora, basta dizer que fiquei feliz com o resultado da minha tese. é claro que ela poderia ser melhor - nenhum texto está terminado, não de verdade. por isso a importância dos prazos, para que a gente se force a parar de escrever e simplesmente entregue a coisa. durante minha maratona de escrita da tese, a seguinte frase estava bem na altura dos meus olhos, no meu mural:
“a tese perfeita é a tese terminada.”
essa foi a frase que me descongelou do pânico de estar escrevendo uma tese de doutorado, várias vezes. também ajuda que eu pensava na tese como o início da minha carreira acadêmica. ela é o primeiro tijolo no edifício que vou construir daqui pra frente, e, com ela, não pretendia mudar a ciência ou introduzir um novo paradigma (para citar Kuhn). eu só queria chamar atenção para essas comunidades transfronteiriças, que estão cada vez mais tendo impacto para a política internacional, e aproximar dois campos de estudo que, a meu ver, têm muito a contribuir um com o outro.
deu certo, eu acho. quer dizer, agora eu não preciso mais desmarcar a caixinha de “doutores” quando vou procurar meu currículo Lattes.
quis escrever esse número logo, pra não perder o ritmo da newsletter de novo e deixar vocês sem outro update por meses sem fim. esse é certamente o último número de 2025! hahaha esse ano maluco em que voltei a morar com a minha mãe, adotei duas gatinhas, comecei a tomar antidepressivo, comecei a fazer exercício frequentemente… eu estava esperando terminar o doutorado pra começar minha vida e agora… é hora de começar, parece.
continuem prestando atenção neste endereço, porque agora que meu trabalho principal não é mais escrever sem parar, tô mais animada com a newsletter. acho que vai rolar pelo menos um número por mês! <3 então se inscreve.
e se quiser comentar, comenta também. amo saber o que vocês estão pensando dos meus pensamentos. e talvez eu volte a postar mais no bluesky, pra quem ainda frequenta lá. (não volto pro Twitter, pessoal. o ranço pelo Musk venceu horrores.)
boas festas e aproveitem o fim de ano!
beijos, lu