alô, internet! espero que estejam bem. boas-vindas a mais uma edição da gaveta de tralha, minha newsletter sobre cultura (pop, digital, de fãs). eu sei que sumi e que tinha prometido pelo menos um número por mês lá em - sei lá, fevereiro?

mas, adivinhem: a minha tese de doutorado me mastigou até moer meus ossos. (para a surpresa de ninguém.) e, enquanto escrevia o segundo número original desta newsletter, que seria sobre a franquia Dragon Age, ele foi ficando quase do mesmo tamanho que minha tese de doutorado. (e olha que a metodologia daquele número é parecida com a da tese, já que fiz até mini-entrevistas!) (apreciem meu comprometimento.)

então é hora de partir pra próxima e deixar o número sobre Thedas cozinhando mais um pouco.

desde a última vez que vocês me viram, eu passei por umas três crises diferentes de saúde na minha família, comecei a tomar antidepressivos, me mudei e defendi o doutorado. eu dificilmente sou a mesma Luisa que era no início do ano, mas a vida tem dessas.

antes de mergulharmos no número de hoje, não esquece de assinar a newsletter pra ficar sabendo de todas as vezes que eu postar. (de forma intermitente. vocês sabem como é.) e recomendem a newsletter para seus amigues!

quem tá a fim de cometer assassinatos literários?

não estou confessando crimes. é uma metáfora.

se você faz parte de alguma comunidade que trata de livros nas plataformas digitais - que eu carinhosamente apelidei de “bookredes” -, você já se deparou com discussões sobre A Morte do Autor™. elas vêm, geralmente, acompanhadas por debates acerca do último “cancelamento” (detesto esse termo) de determinado autor1. basicamente, o autor de alguma obra muito querida e admirada revela-se uma pessoa de caráter duvidoso, que está envolvida com práticas antiéticas do mercado editorial, tem posicionamentos políticos perigosos e intolerantes, ou se envolveu em algum tipo de escândalo, geralmente sexual.

admiradores dos livros dessa pessoa podem fazer uso d’A Morte do Autor™ para argumentarem que, uma vez que a obra saiu do cérebro daquela pessoa e encontrou o mundo, pouco importa o criador. agora, a obra é das pessoas que a consumiram, que encontraram lições valorosas em suas páginas, que se conectaram com personagens e aprenderam diferentes maneiras de enxergar o mundo. o autor, no fim das contas, está morto, e cabe aos leitores tomarem para si a obra original e separarem-na de qualquer ligação com seu criador. o autor criou a história, mas são os leitores que decidem o que fazer com ela. afinal de contas, é preciso separar a arte do artista.

a ideia d’A Morte do Autor™ é derivada a partir da obra do filósofo da literatura Roland Barthes. Barthes nos diz que o nascimento da figura do leitor como central no relacionamento derivado do engajamento com literatura vem a partir da morte do autor. isto é, na modernidade, o autor é afastado de sua obra e a figura do leitor vira protagonista. não existe mais procura pelo Sentido Final do texto, já que não atribui-se mais ao autor a figura de autoridade suprema sobre os significados inscritos no texto. não se pesquisa mais ostensivamente a biografia do autor para compreender cada uma das suas escolhas em sua escrita, não se procura mais fazer pontes entre a experiência vivida do autor e seu texto.

o texto existe, por si só, sendo enunciado, e é isso aí. não precisamos mais compreender a subjetividade e a psiquê do autor para entendermos seu texto. entendemos o texto porque somos seres pensantes e o texto está lá; a intenção do autor existe quando ele a torna explícita em suas palavras, mas, de resto, interpretações são feitas a partir da perspectiva de cada leitor. é impossível negar que um personagem tem cabelo castanho, quando o autor assim o descreve; no entanto, podemos inferir que seus olhos são negros para enfatizar seu aspecto sombrio quando o autor não disse nada disso pra gente.

então, quando Barthes teoriza A Morte do Autor™, ele quer dizer que a produção de sentido de um texto não depende da intenção do autor uma vez que o texto está publicado. não necessariamente que não há nenhuma conexão entre autor e texto, como muito das bookredes gostaria que fosse. especialmente no mundo capitalista em que vivemos, em que autores ganham royalties a partir das vendas de todos os produtos derivados do seu trabalho criativo: exemplares de livros, ingressos de adaptações cinematográficas, peças de roupa e decoração licenciadas e relacionadas com o texto.

quando se defende A Morte do Autor™ nestes termos, se ignora o apoio material dado a esses autores, através do consumo direto ou derivado do seu trabalho. esse assunto volta e meia retorna à relevância nas bookredes, porque volta e meia um autor faz uma coisa terrível que precisa ser denunciada e a comunidade de livros tem que negociar o quão conectada é com a obra para romper qualquer contato com ela e com o seu autor.

eu tive que matar três autores muito queridos para mim, que escreveram livros que me formaram enquanto leitora e pessoa, e gostaria de falar sobre esse processo dolorido de negociação da importância de uma obra para mim. vamos abrir essa caixa preta.

o último assassinato.

no dia 3 de julho de 2025, a segunda (e última) temporada de The Sandman, série de fantasia baseada na aclamada história em quadrinhos idealizada por Neil Gaiman foi ao ar na Netflix. Gaiman estava a frente de grande parte da divulgação e do marketing da primeira temporada da série (lançada em 2022), aparecendo em diversas plataformas sociais da Netflix falando sobre o lançamento. a adaptação, baseada em sua obra-prima, era algo que estava entrando e saindo de desenvolvimento há anos; ninguém parecia fazer jus à visão que Gaiman tinha para o tom da adaptação.

só com Gaiman a frente, como produtor-executivo e showrunner, é que The Sandman saiu do papel e chegou à Netflix. a série foi um projeto ambicioso e muito bem-sucedido, rendendo a Gaiman muitas críticas positivas e confiança por parte da Netflix para escrever e produzir mais séries para o serviço de streaming, como Dead Boys Detectives. a Amazon também já havia reconhecido o brilhantismo do trabalho de Gaiman, tendo adaptado seu livro American Gods em duas temporadas, além do trabalho de Gaiman com Terry Pratchett, Good Omens, com David Tennant e Michael Sheen nos papéis principais, conquistando o coração de muitos fãs.

e, em 2024, com a segunda temporada de The Sandman e a terceira temporada de Good Omens no forno, surgem as acusações de abuso sexual. não entrarei em detalhes aqui, para não engatilhar ninguém (para detalhes, vejam esses links aqui), mas as acusações eram sérias, envolviam, em parte, a ex-companheira de Gaiman, a poetisa Amanda Palmer, e se estendiam desde os anos 1990.

apesar de uma hesitação inicial acerca da fonte que divulgou os relatos da vítima principal, uma ex-babá de Palmer e Gaiman, as acusações se provaram verdadeiras e mais mulheres vieram à frente para relatarem os abusos que sofreram nas mãos de Gaiman. houve muita especulação nos fandoms do autor sobre as acusações, já que havia desconfiança sobre o veículo que deu o furo de reportagem e também pela atuação de Gaiman como uma pessoa abertamente a favor dos direitos das mulheres e de seu empoderamento. um dos números de The Sandman, adaptado para a série, retrata a perversidade de um autor que literalmente abusa sexualmente de Calíope, figura da mitologia grega, a fim de destilar inspiração para seus trabalhos e melhorar sua construção de texto.

eu fui pega de surpresa; não esperava isso vindo de um autor que não tinha medo de criticar a violência de gênero sofrida pelas mulheres, especialmente em The Sandman. Gaiman sempre foi um contador de histórias importantíssimo para mim - eu conheci o trabalho dele com Stardust, através do filme, que era um dos preferidos da minha avó Alba, hoje falecida, e que assistimos incontáveis vezes juntas. ele era listado como um dos meus autores preferidos no Goodreads. eu usava The Sandman como inspiração para o tipo de história que gostaria de contar, uma vez que tivesse coragem de ser efetivamente uma escritora.

por isso essa traição foi tão cruel, e doeu tanto. eu, dona de mais de uma dezena de livros de Gaiman, tive que colocá-los de lado. não suportava mais olhar para eles e pensar que a pessoa que tinha escrito aquelas histórias, a quem eu admirava tanto, era capaz de cometer atos horripilantes e se aproveitar de quem nutria grande conexão com seu trabalho. não foi muito difícil tirar Gaiman dos meus pensamentos quando as acusações se provaram sólidas, apesar do veículo de comunicação pelo qual saíram.

mas aí, a segunda temporada de The Sandman estreou. Gaiman estava escondido, não apareceu na divulgação em nenhum momento, e, nas entrevistas com o elenco, era claro que havia muita tensão não dita naquele ambiente. acompanhei a campanha de marketing da segunda temporada de forma involuntária, através dos feeds das redes sociais, e quando a série finalmente estreou, tive que me confrontar com a decisão de assisti-la ou não. a segunda temporada seria a última, finalizando a história de Sonho, e apresentando a minha personagem preferida em toda a sua saga: Delírio, sua irmã mais nova.

eu amava tanta coisa sobre The Sandman. eu amo a jornada de Sonho, em se tornar mais misericordioso e mais humano, e sendo aniquilado por isso. eu amo Delírio, com sua aura confusa, olhos díspares, otimismo mal direcionado e o fato de que todos se impressionam com o fato de que ela ainda assim, de alguma maneira, é um ser funcional. eu amo que essa última parte da história é apenas um drama familiar em níveis ontológicos, envolvendo a complicada família dos Perpétuos. eu amo como The Sandman celebra o poder da imaginação, como sonhar é tão parte da nossa constituição quanto respirar.

assisti a segunda temporada de The Sandman por meios escusos, furiosa com Gaiman o tempo todo. chorei em diversas ocasiões, de emoção por ver uma cena querida sendo retratada, de desespero pelo final trágico de Orfeu e de Sonho, e, principalmente, de ódio por tudo aquilo que Gaiman tirou de mim. nunca mais conseguirei pensar em The Sandman e em Calíope sem pensar no tenebroso teor autobiográfico de uma história que achei que fosse essencialmente crítica à exploração feminina. não mais conseguirei olhar para Delírio e seu olhar inocente sem ficar me perguntando se ela foi inspirada por alguma das vítimas de Gaiman. ainda assim, penso em como todo o trabalho dele inspirou minha prática criativa, como eu penso em histórias, como quero construí-las e o que enfatizar nelas.

The Sandman me transformou, como pessoa. não posso negar isso. mas o que eu faço com isso é de minha vontade. Gaiman não tem nada a ver com isso, e escolho deixar essa história para trás, reconhecendo seu impacto em mim, mas dando espaço para outras histórias, outras transformações.

o segundo assassinato.

desde pelo menos 2019, JK Rowling (JKR) tem se posicionado de forma abertamente transfóbica nas plataformas sociais (principalmente no Twitter/X), em entrevistas e até mesmo em sua obra, com os livros mais recentes de Cormoran Strike, escritos sob o pseudônimo Robert Galbraith. pode-se argumentar que não tem como esperar muito de uma autora que só foi confirmar fora da página que Dumbledore é gay, e nunca superou sua paixão por Grindelwald na saga Harry Potter original, mas a verdade é que HP sempre foi maior que Rowling. HP é aquele tipo de história que marca uma geração inteira de forma intensa, para além de seus gostos para literatura, mas para seus posicionamentos políticos, seus interesses turísticos, suas vontades gastronômicas. 

aos 17 anos, eu fui conhecer os estúdios Warner onde os filmes foram gravados, tirando fotos com o Noitibus, bebendo cerveja amanteigada e gastando uma pequena fortuna na loja de presentes. foi um dos dias mais felizes da minha vida até então; meu intercâmbio para Londres aconteceu em parte porque eu amava séries e livros britânicos, e queria poder visitar os lugares que só tinha visto na telinha ou em páginas. Harry Potter era uma obra muito querida, uma parte da minha personalidade, até; eu abertamente me identificava como aluna da Corvinal, a casa azul da saga, associada com as pessoas curiosas e inteligentes.

na minha experiência, Harry Potter era uma paixão facilmente compartilhada com outras pessoas da minha idade, mais velhas, ou mais novas. e eu, tímida e introvertida, gostava de ter um assunto seguro, que eu dominava (tendo lido e relido os livros, presenciado todas as estreias de cinema, sendo leitora e escritora de fanfics), uma maneira certeira de me conectar com pessoas desconhecidas e fazer a conversa fluir. que nem com The Sandman, é impossível dissociar minha prática criativa de Harry Potter, já que minhas primeiras histórias foram fics da saga, já que eu gastei incontáveis horas em fóruns de RPG ambientados em Hogwarts. eu já era uma leitora fominha antes de HP, mas esses livros foram especiais. eram livros cujo enredo empoderava pessoas jovens, estimulando-as a lutar contra injustiça e tirania. os livros chamavam atenção para narrativas falsas na imprensa, para como governos preferem conciliar grupos de ódio ao invés de desarmá-los, para as formas pelas quais os adultos falham e falham com crianças e adolescentes. além de ser muito divertido! feitiços, hipogrifos, esporte mágico, bailes de inverno. apreciei os 7 livros e 8 filmes o melhor que pude.

até que JKR não conseguiu mais esconder a pessoa que é, declarando que mulheres trans são homens de vestido, tentando vilanescamente desmascarar como trans várias mulheres cis (como se houvesse algo intrinsicamente errado em ser trans), usando os royalties da saga que tanto amei para financiar grupos transfóbicos. a dissonância cognitiva era feroz, porque Rowling sempre se colocou como aliada de gays e lésbicas, mas subitamente revelou ter uma animosidade violenta contra um dos grupos mais marginalizados da contemporaneidade.

no entanto, não fui completamente pega de surpresa. havia algo que Rowling havia demonstrado no lançamento de conteúdo expandido da saga Harry Potter no portal Pottermore que havia deixado uma pulga atrás da minha orelha. no site, Rowling descrevia as demais escolas bruxas que existiam no planeta, para além daquelas que apareciam nos livros: uma nos EUA, uma no Brasil, uma na África e uma no Japão. como assim? que falta de curiosidade com a complexidade do mundo faz com que a Europa tenha 3 escolas, mas Ásia e África apenas uma cada? pra mim, essa falta de cuidado de Rowling dizia muito sobre seu comprometimento com a construção de uma obra representativa, complexa.

mas eu não esperava que essa falta de cuidado com a experiência alheia ia se manifestar em transfobia! especialmente quando a comunidade LGBT+ constituía, pelo menos anos atrás, uma parte relevante da comunidade de fãs de Harry Potter. um dos ships mais populares de HP é, afinal de contas, wolfstar, o romance entre Sirius e Remus, ambos homens. a partir desse novo posicionamento de Rowling, tive que pensar sobre o meu posicionamento. sobre o que, de novo, eu deveria fazer com essa história, que havia significado tanto pra mim, mas que tinha sido concebida por uma pessoa pérfida.

vocês não vão me ouvir falar de Harry Potter nunca mais, se eu puder evitar. não releio os livros. não reassisto os filmes. nem terminei de escrever minhas fics, coisa que eu adorava fazer. não joguei Hogwarts Legacy, nem assisti gameplays. não tenho interesse nenhum em assistir Cursed Child ou a série nova que está em desenvolvimento na HBO. Rowling está viva, se beneficiando de cada gota de capital econômico e cultural que conferimos a ela para ativamente machucar pessoas de uma categoria extremamente ameaçada. por mim, depois de sete palmos de terra, jogamos uma pá de cal e deixamos para trás todo o legado de Rowling.

o primeiro assassinato.

talvez isso tudo tenha acontecido por causa da primeira vez em que fui obrigada a pegar uma faca, abrir meu peito, e tirar do meu coração, com a parte pontuda da lâmina, quem era até então a autora da obra literária mais formativa para mim. pasmem, não era JK Rowling e seu menino bruxo, mas sim Marion Zimmer Bradley (MZB), autora de As Brumas de Avalon, livro que marcou a adolescência da minha mãe e cuja obsessão herdei dela. (coisa muito comum com mulheres da minha geração, descobri anos depois.)

não sei se em alguma outra edição eu comentei o quão obcecada sou pela lenda arturiana. eu não sei porque a figura possivelmente mitológica de um rei bretão do século IV (aproximadamente) tem esse peso pra mim. sei lá, talvez porque eu saiba que governantes justos, genuinamente comprometidos com a luta contra a tirania e interessados no bem-estar de seus cidadãos, só existam em histórias de fantasia. pode ser também porque eu sempre, sempre, gostei de bruxas, que povoam infinitamente a lenda arturiana, ou ainda porque curto a dinâmica desastrosa de Guinevere-Artur-Lancelot

em junho de 2014, quando eu tinha 19 anos e tinha acabado de começar a morar sozinha, Moira Greyland, filha de MZB, veio a público com os relatos do abuso sexual e físico que sofreu nas mãos da mãe enquanto criança. o irmão dela, Mark, também falou brevemente do abuso que sofreu. Marion e o marido Walter Breen molestaram os filhos e fizeram outras vítimas; apenas Breen foi preso por seus crimes. Marion morreu em 1999, sendo adorada pela comunidade de escritores de fantasia e ficção científica dos EUA da época, por conta da sua importância e protagonismo em abrir espaços para a comunidade no mercado da publicação tradicional.

eu me lembro de ler os livros tão amados por minha mãe e depois irmos conversar sobre eles, sobre a esperteza de Morgana, a fragilidade de Gwenhwyfar, a sordidez de Viviane. nós não somos as únicas que admiravam As Brumas de Avalon, uma abordagem da lenda focada nas personagens femininas, tratando-as como pessoas complexas, lutando para controlarem seu próprio destino. desde então, li e vi tantas outras histórias da lenda arturiana! gostar das histórias do Rei Artur virou parte de mim, interesse que começou por causa das Brumas, ao ponto de eu ter uma prateleira no meu Goodreads dedicada a livros que tratam da lenda, nas mais diversas abordagens, e ter batizado uma das minhas gatinhas de Avalon.

essa é a cara da Avalon num domingo de manhã. ela é igual a mim.

à luz do histórico de MZB, as Brumas, que têm o tema do incesto como central para a narrativa, ficam muito mais soturnas. a partir daí, eu tive que lidar com o mal estar físico que era saber que esses livros foram escritos por uma pessoa má, que tinha abusado dos filhos e de várias crianças. hoje em dia, percebo que, apesar das Brumas ter iniciado meu interesse na lenda arturiana, ele cresceu para algo muito maior do que isso. minha curiosidade foi atiçada a ponto de eu me aventurar em diferentes gêneros - livro de guerra, poemas, erótico - atraída simplesmente pelo meu apego a esses personagens e pelos elementos do esqueleto da história. Morgana é, obviamente, a minha personagem preferida, mas eu também gosto de pensar em histórias derivadas da lenda arturiana como histórias que contam com uma pitadinha de comentário contra a tirania, histórias de aventura cheias de magia, histórias que examinam a heterossexualidade e a monogamia como mitos fundadores do Estado-nação. (juro. peguei vocês de surpresa nessa última, né?)

então, reconhecendo que MZB foi a responsável por plantar as sementinhas do meu amor pela lenda arturiana em meu coração, mas que eu não devo a ela minha gratidão por nada, porque ela não merece, foi ela quem matei primeiro.

a guilda de assassinos.

admitir o potencial transformador e revolucionário das histórias ao mesmo tempo em que se reconhece que seus autores podem ser cuzões é importante. não é porque fulano escreveu uma obra prima que ele está acima de críticas, de ser relegado ao esquecimento. nenhuma obra de arte é tão etérea e sublime que vale a pena ter sido construída a partir de sofrimento humano alheio, ou que continue a financiar ódio.

essa é a minha opinião, claro, de uma pessoa que já tem 3 assassinatos metafóricos (pra deixar claro!) no histórico. o mais importante, acredito, é termos atenção sobre o que nossos heróis e suas obras significam pra gente - e termos disposição para renegociar os termos desse significado. vale mesmo a pena ter como referência pessoal, de vida, uma história escrita por uma pessoa que tira todo o lucro que consegue por conta dessa história para machucar pessoas inocentes? vale mesmo a pena deixar seu coração se encher e transbordar com palavras falsas e vazias de uma pessoa que diz defender as mulheres em público enquanto as violenta no privado?

sei lá. o que vocês acham?

nos vemos na próxima, internet. se inscrevam aí, porque vai ter próxima, sim!

beijos,
lu.

1  aqui estou falando de livros, mas esse tipo geral de discussão ocorre em peças de diferentes mídias, sejam filmes, séries televisivas, podcasts etc.

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